23 de agosto de 2011
Lista de filmes sobre a Guerra Fria
- Treze Dias Que Abalaram o Mundo (2003)
- Rambo 2 e 3 (1972 e 1985)
- Gotcha! Uma Arma do barulho (1985)
- Jogos de guerra (1983)
- Os eleitos (1983)
- Caçada ao outubro vermelho (1990)
- O dia seguinte (1983)
- Dr. Fantástico (1964)
- Adeus, Lênin! (2003)
- Gritos do silêncio (1984)
28 de junho de 2011
Christiania: a prova de que anarquia não é utopia
Christiania: uma cidade sem governo
Ação Direta
31 de maio de 2011
Lista de filmes sobre a Segunda Guerra
La vai:
O grande ditador - Charles Chaplin, 1940.
Tora! tora! tora! - Richard Fleischer, Kinji Fukasaku, Toshio Masuda, 1970.
A escolha de Sofia - Alan J. Pakula, 1982.
Arquitetura da destruição - Peter Cohen, 1992.
A lista de Schindler - Steven Spielberg, 1993.
A vida é bela - Roberto Benigni, 1997.
O aprendiz - Bryan singer, 1998.
A Língua das Mariposas, José Luis Cuerda, 1999.
A queda! As últimas horas de Hitler -Oliver Hirschbiegel, 2004.
A conquista da honra - Clint Eastwood, 2004.
O labirinto do fauno - Guillermo del Toro, 2006.
O pianista - Roman Polanski, 2009.
21 de março de 2011
Surplus - uma reflexão
28 de fevereiro de 2011
Se você usa Dior, saiba que quem as faz é um neonazista...
Estilista foi detido na semana passada acusado de 'agressão leve' e insultos.
Assista ao vídeo aqui
"Pessoas como vocês estariam mortas hoje. Suas mães, seus antepassados teriam sido mortos pelo gás", afirma Galliano no vídeo, gravado por uma das pessoas do grupo no mesmo bairro de Marais, no centro de Paris, onde o estilista foi detido.
O "The Sun", que não informa quando o vídeo foi feito, acrescenta que no grupo havia franceses e italianos, nenhum deles judeu.
"Galliano estava sentado sozinho com sua bebida na mão quando nós nos sentamos na mesa ao lado", explica o autor do vídeo. "Ele não parava de se intrometer, fazendo comentários sobre nós e sobre o que dizíamos. Sabíamos quem era. Ele é fácil de reconhecer", acrescentou.
"Estávamos atônitos por causa das coisas que ele disse, mas aí ele começou a fazer comentários antissemitas horríveis. Suas palavras eram repugnantes (...) Era puro racismo", acrescentou.
Segundo o jornal francês "Le Parisien", outra jovem francesa denunciou no sábado os insultos antissemitas que Galliano teria feito em outubro de 2010 no mesmo café La Perle.
Neste incidente, Galliano debochou do físico da denunciante antes de proferir insultos racistas em inglês.
Biografia
Filho de um encanador inglês e de uma espanhola, Galliano é um dos estilistas mais inventivos de sua época, deslumbrando as passarelas parisienses a cada temporada com suas criações ousadas e desfiles que são verdadeiros espetáculos de extravagância.
Ele se formou na prestigiada Saint Martin's School of Art de Londres, de onde saíram alguns dos estilistas mais vanguardistas do século XX, que ajudaram a elevar a capital inglesa à elite das capitais mundiais da moda.
John Galliano começou desfilando na Semana de Moda londrina. Em 1987, venceu o prêmio de melhor estilista britânico do momento. Em 1993, decidiu se mudar para Paris, onde vive até hoje.
Dois anos mais tarde, foi contratado pelo presidente da prestigiosa LVMH, Bernard Arnault, como diretor de criação da Givenchy, outra das marcas de luxo mais disputadas do mundo.
Desde 1999, Galliano dirige todas as linhas femininas da Dior, além da divisão de artigos de couro e da imagem da marca. Ao mesmo tempo, desenha suas próprias coleções.
17 de fevereiro de 2011
Entrevista com Rodrigo Mac Niven - Produtor do Documentário "Cortina de Fumaça"
Em entrevista concedida com exclusividade à Brasil NORML, o jornalista Rodrigo Mac Niven, produtor do documentário “Cortina de Fumaça”, falou um pouco mais sobre a legalização da maconha no Brasil e a falta de informação da sociedade em relação ao assunto.
Para ele, antes de haver o debate sobre qual a melhor política, é preciso fornecer à população subsídios para que ela possa fazer esta escolha com o pé no chão. Porém, a falta de acesso à informações precisas e confiáveis acaba cegando as pessoas contra a real situação das drogas.Brasil NORML: Quando você decidiu produzir um documentário que falasse sobre Maconha?
Rodrigo Mac Niven: Por volta de 2008 eu estava lendo o livro do Denis Russo (Coleção Super Interessante Para Saber Mais Volume 4 – Maconha) e percebi que eu desconhecia noventa por cento daquelas informações que estavam ali. O que me chamou mais a atenção foi descobrir que a Maconha tem um papel super importante dentro das políticas anti-drogas. Eu decidi então que queria investigar mais o assunto e, já em Maio de 2009, viajei para Europa para começar a gravar o filme. A primeira parada foi a Feira Cannatrade, na Suiça. Foi tudo no “esquema colaborativo”, digamos assim. Liguei para o organizador da feira, expliquei minhas intenções e ele me colocou lá dentro.
BN: Qual era seu objetivo quando teve esta ideia?
RMN: A primeira ideia era criar um debate, tanto que eu explicava aos entrevistados que eu não estava levantando nenhuma bandeira, que apenas queria promover uma discussão. Mas ao longo do tempo reparei que eu mesmo era ignorante sobre o assunto, e, portanto, precisava levantar mais informações. Pois como era possível debater se, assim como eu, as pessoas eram carentes de informações básicas sobre a maconha? Então, mudei meu objetivo e resolvi pesquisar a fundo a questão sobre políticas anti-drogas e sobre as pesquisas medicinais . Mas a minha maior preocupação era passar esta informação com credibilidade, para que o espectador não pensasse que eu estava tentando convencê-lo do meu ponto de vista. Pelo feedback que tenho recebido, acho que atingi este objetivo.
BN: Depois de toda sua pesquisa, qual a sua opinião sobre o consumo de maconha e as políticas anti-drogas no Brasil?
RMN: Eu sempre achei que a proibição da maconha era meio “over”, mas, como todo mundo, eu ficava no achismo. Hoje estou mais convencido de que a legalização é a política mais adequada. Eu acho que o consumo, ou o desejo de usar qualquer tipo de droga não deve ser reprimido, porque isso não cabe ao Estado. Mas existe uma certa confusão entre liberar e legalizar. Legalizar é colocar dentro da lei, é regulamentar. Principalmente o uso medicinal, que não tem mais como ser contestado. Na minha opinião, o desafio, hoje, é comunicar. É oferecer informação relevante à população. Porque a atual política proibicionista é muito danosa à sociedade. O próprio filme fala sobre isso, que a origem do uso de drogas está no desespero, na pobreza. E a repressão vem para mascarar estas origens. Agora, eu penso que a legalização também não resolveria o problema da violência, mas, com certeza, ajudaria a diminuí-la.
BN: Você acha que o Brasil está, hoje, preparado para uma política de legalização?
RMN: Acho que não. Quero dizer, eu não tenho tanta informação sobre o sistema de saúde no Brasil e também não acredito que isso aconteça de uma hora para outra. Recentemente, até tentaram avançar nesta questão através do relaxamento da pena para usuários, mas a gente sabe que, no final, essa mudança apenas piorou a situação do pobre, pois o enquadramento como usuário não virou circunstancial. Eu acredito que a primeira medida a ser tomada deve ser a liberação do plantio, pois a maconha tem um ciclo diferente. É a única droga que você pode plantar, colher e consumir no mesmo lugar. Só esta medida já reduziria a procura pela droga através do tráfico. A segunda medida é a legalização do uso medicinal. Ainda existem muitos médicos que não aceitam as propriedades terapêuticas da maconha, mas isso já está mais que provado. Deve-se, no entanto, atentar para um possível monopólio por parte dos laboratórios, o que prejudicaria o cultivo caseiro.
BN: Como o filme foi uma produção independente, você encontrou alguma dificuldade durante o sua elaboração?
RMN: Por incrível que pareça, não. Não tive quase nenhuma dificuldade. Depois que fui bem recebido na feira da Suiça, resolvi falar com o Gabeira. E achei que seria muito difícil e tal. Mas foi um processo relativamente fácil e sem grandes dificuldades. É óbvio que houve um trabalho intenso de assessoria, telefonemas e envio de e-mails, mas todos foram muito receptivos. É como se todo mundo já estivesse querendo falar sobre isso há muito tempo. Mesmo quando viajei para o exterior, e me identificava como jornalista brasileiro, fui bem recebido. As pessoas conhecem o Brasil e sabem que é um país enorme. Elas viam no Brasil a possibilidade de influenciar as políticas anti-drogas latino-americanas.
BN: Você não teve medo de sofrer algum tipo de represália do governo?
RMN: Eu tive ajuda de um advogado que orientou todo o trabalho, para evitar esse tipo de problema. Ele foi mais um consultor, digamos assim. De qualquer forma, eu não me preocupei muito com isso, porque, afinal, aqueles depoimentos não eram a minha fala, mas sim de pessoas gabaritadas e experientes dividindo o seu conhecimento. Nada mais.
BN: Você tem planos de lançar outros trabalhos sobre o assunto?
RMN: Tenho alguns projetos andando em conjunto com o grupo Coletivo, do qual participo, que é basicamente um grupo de produção de ideias, onde existem pessoas pensando assuntos não só sobre políticas anti-drogas, que atualmente é o nosso carro-chefe, mas também sobre questões sociais, corrupção e, por aí vai… O Coletivo seria a minha iniciativa ativista, visando produzir informação com credibilidade. Futuramente, pensamos em produzir mais curtas-metragens para democratizar o acesso. Um longa traz bastante conteúdo, mas demora muito tempo para ficar pronto. Hoje a sociedade é altamente audiovisual, por isso este formato tem muito apelo. Como o excesso de texto não é atrativo, queremos levar conhecimento através de pequenos vídeos.
BN: E quando será a próxima exibição do Cortina de Fumaça?
RMN: Fechamos mais uma exibição independente em São Paulo, no espaço Matilha Cultural, mas a datas ainda serão confirmadas.
15 de outubro de 2010
Mais sobre o samba
A cultura brasileira constituiu-se ao longo do tempo das mais diversas fontes e influências para a construção de sua concepção musical. Aproximando a música indígena, os ritmos africanos e a música tradicional européia, o povo brasileiro constrói uma “geléia geral” musical, evidenciada por Varnhagen no século XIX1 e perpetuada na sociedade contemporânea. Esclarecer esse caminho e discutir sobre os novos rumos da música no Brasil tem sido objeto de estudo para as diversas áreas que tratam da cultura brasileira. Essa produção buscará contribuir para esses estudos, utilizando uma abordagem historiográfica da cultura brasileira, sua construção e direções no processo histórico do país.
José Ramos Tinhorão relaciona a evolução social do Brasil com a dominação econômica e a dependência da cultura estrangeira2. Durante o período colonial, a sociedade brasileira - composta em sua maioria por negros e europeus – é moldada a partir de influências sócio-culturais dos povos que criarão a identidade nacional. Francisco Adolfo de Varnhagen - historiador do século XIX e membro-fundador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) - foi responsável pelas primeiras pesquisas sobre a identidade do povo brasileiro, onde busca informações acerca dessa composição conjunta com o estrangeirismo, que influenciava a cultura de maneira majoritária. Sua explicação para esse fenômeno não foi aceita primeiramente e o IHGB, órgão pensante acerca da identidade nacional no Brasil Imperial, tentou até mesmo a eugenia, julgando a presença do negro e do índio insignificante para a construção dessa identidade.
As medidas adotadas somente fortaleceram a presença multicultural nas camadas sociais, que, como seria para Mark Block (obra p.), seriam a responsável pela história vista de baixo, já que por um lado ritmos como o lundu, a congada e o fado faziam parte do cotidiano das baixas camadas sociais e, por outro lado, o choro, o romantismo e as cantigas portuguesas passam a invadir os bailes e salões na segunda metade do século XIX. Não que os ritmos africanos e indígenas eram bem aceitos pela alta sociedade brasileira do período imperial, mas a mistura de ritmos passou a ser apreciada por essa camada social à medida que mostrava suas influências tanto na senzala quanto na casa grande3.
Durante o início do século XX – a chamada “belle époque brasileira” -, após a proclamação da república, a música popularesca era composta de valsas, polcas e mazucas vindas da Europa, mas também dos Estados Unidos, que iniciara seu processo de criação musical em torno da música folk, do campo. No Brasil, a música sertaneja, de seresta, empolgava as pequenas multidões rurais, conglomerados de pequenas centenas de habitantes, mas que compartilhavam o mesmo cotidiano. Retratar o cotidiano foi a postura adotada pelos escravos do jongo ou da congada no período colonial, e esta será a postura adotada durante a belle époque brasileira no campo.
Nas cidades, as quais cresciam vorazmente - apesar da dominação social exercida pelos latifundiários -, o sentimento era mais importante, já que a grande maioria da população era composta pelo proletariado e, apesar dos bailes e festas dos donos de propriedades, reunia-se nos subúrbios, na periferia, onde a criação musical representava o cotidiano suburbano. Nascia assim os primeiros sambas, em contrapartida aos ritmos europeus e estadunidenses presentes no imaginário da época.
A música negra cantada nas senzalas passa a se adaptar à vida nos morros do Rio de Janeiro e São Paulo, primeiramente na cidade maravilhosa. Os núcleos urbanos no Rio, devido a sua arquitetura4, proporcionavam a aproximação do operariado, do contingente de funcionários domésticos e pequenos comerciantes. Os teatros em revistas eram o primeiro passo para tornar essas músicas nacionalmente conhecidas, não só no campo musical, como também no campo teatral5. As revistas teatrais serviriam como trampolim para a inserção da música popular do morro nos núcleos aristocráticos.
As revistas do Rio de Janeiro do início do século XX eram direcionadas para o teatro, onde a música entraria nas primeiras edições em segundo plano. Com o passar do tempo e com o sucesso nacional das músicas divulgadas nesses selos, que futuramente seriam responsáveis pelas tiragens de discos, como a gravadora Chantecler, os músicos entraram na onda das revistas de teatro, atraindo público cada vez mais constante nas apresentações ao vivo. O preço do ingresso para esses shows era irrisório, pois os mesmos eram feitos ao ar livre e com a participação de músicos que ainda estavam no anonimato, atraindo multidões para as praças públicas do Rio de Janeiro. Em um desses eventos, ocorrido antes do carnaval de 1911 com o intuito de divulgar as músicas do carnaval daquele ano, contou com a participação de uma música de Nicolino Milano que logo após a apresentação estava sendo entoada em todos os cantos da cidade6. Esse foi o primeiro fado adaptado para o carnaval, apesar da existência da já famosa marchinha de Chiquinha Gonzaga “Ó abre alas”, criada em 1909, também com cadências do fado. Dessa mistura de ritmos europeus, como o fado e a polca, nascia a marchinha, que viria a ser o carro-chefe dos carnavais cariocas.
Chiquinha Gonzaga já era considerada uma grande maestrina nos autos de 1910. Seu estilo livre, desprendido das regras tradicionais e misturando os ritmos existentes em suas canções, se tornaria a precursora das marchinhas escritas em pautas, lançadas inicialmente nas revistas teatrais, direcionada para a sociedade “belle époque” brasileira, que, por pura ironia, apresentava críticas sociais a essa mesma classe ouvinte, aproximando-se ainda mais do público e iniciando o processo de popularização da música direcionada somente a alta sociedade da época até então. Tangos, maxixes, polcas e fados, além das músicas de senzala do período colonial, como o jongo, seriam os responsáveis por influenciar os artistas populares e iniciar o processo de criação de um novo ritmo musical nascido na periferia da cidade: o samba entoados nos morros.
O samba - nomenclatura que em dialetos bantu significa “umbigada” – expressava no morro todo o descontentamento com os governos oligárquicos e se aproveitavam da sutileza do jongo para alfinetar a classe mais abastada. A identificação popular com as músicas para o teatro era tanta que, após 1915, as rádios passam a inseri-las em sua programação, aproveitando músicos como Pixinguinha, Ari Barroso e Sinhô, além, é claro, da própria Chiquinha Gonzaga, tornando-se a grande sensação em todos os meios sociais cariocas, do morro às mansões da zona sul, lançando assim um dos maiores patrimônios culturais brasileiros.
A música popular modifica-se ao longo do tempo, mas mantém o mesmo viés da música dos séculos anteriores, que buscavam inserir em suas canções todos os gêneros musicais existentes, refinando cada vez mais a qualidade musical e a peculiaridade única da nossa MPB.
Em 1917, é gravado o primeiro samba. Donga e seu “Pelo telefone” utiliza-se de elementos do samba enredo e marchinhas para dar vida ao personagem que fará história até hoje no cotidiano da música popular brasileira: evidenciava-se assim a vida do malandro como expoente para o novo estilo musical.
Após a gravação de “Pelo telefone”, o samba inicia um novo caminho traçado por seus autores involuntariamente: se torna um produto comercializado nas rádios, meio de comunicação que surge no início do século e que, a partir de 1920, passa a entreter a vida das famílias de classe média dos centros urbanos.
Em 1930, Getúlio Vargas torna-se presidente do Brasil através de um golpe popular. Sua política logo se mostrou populista e nacionalista, inspirada pelos governos autoritários da Itália de Mussolini e de Portugal de Salazar. Vargas utiliza o rádio como meio de divulgação de suas idéias populistas, e começa a fazer propaganda política em meio a programação cultural das transmissoras, que, receosos com a queda da audiência, passam a incorporar em sua programação o samba, ouvido por todos os grupos e admirado tanto por membros da elite carioca quanto pelos empregados dos mesmos, ajudando a incorporar o nacionalismo como forma de união de diferentes grupos sociais.
Assim o samba começa a ser conhecido por todo o Brasil, fundindo-se com ritmos regionais, principalmente no nordeste do país, onde a cultura regionalista é mais acentuada. Após a saída de Vargas em 1945, o samba já era conhecido em todo o Brasil. Nas vozes de Orlando Silva, Cauby Peixoto, entre outros, o samba passou a incorporar aspectos de boleros, chorinhos e serestas.
João Gilberto, baiano de Juazeiro, adorava ouvir as músicas da época no auto-falante da praça central da cidade. Ainda garoto, sonhava em ir morar na capital para fazer sucesso como crooner de um grupo vocal, a nova sensação nos bailes do Rio. O que João não imaginava era que em seu destino havia algo muito maior do que ser apenas um cantor de um grupo vocal...
João Gilberto cantava muito bem. Com uma voz forte, conseguia imitar com perfeição a voz de Orlando Silva nos bailes locais e logo se mudara para Salvador, onde ficou por pouco tempo, pois ao dedicar sua vida à arte não imaginava que seria tão difícil sobreviver somente dela. Voltou a Juazeiro mas recebeu um convite para substituir Lúcio Alves em um conjunto vocal no Rio de Janeiro. Era a chance que estava esperando e, sem se lembrar das dificuldades que vivenciou em Salvador, parte para o Rio de Janeiro em 1950.
Dos grupos vocais surgiriam nomes como João Donato, Garoto e João Gilberto, reconhecidos como grandes músicos hoje, mas na época eram jovens com grande curiosidade musical. Junto com outros meninos da classe média carioca, se reuniam em fã-clubes para ouvir Frank Sinatra e o brasileiro Dick Farney (que estava fazendo um tremendo sucesso no exterior). Esses fã-clubes eram bem fechados em estilos concretos, havendo poucas aceitações daquilo que fosse diferente dos grandes ícones musicais dos anos 1950. Como Dick havia conseguido seu reconhecimento no exterior, o sonho americano dos jovens de classe média passou a ser mais constante.
A rivalidade dos fã-clubes e a influência do Jazz e da música branca norte-americana dominaram esse período no Brasil, mas após 1954 o samba volta a falar mais alto dentro da Bossa Nova de “Chega de Saudades”.
João Gilberto, agora cantando baixinho, conseguia obter do violão uma batida muito diferente do samba, do jazz ou do blues, mas ao mesmo tempo, com elementos de todos os ritmos ouvidos na época facilmente detectados.
No início da década de 1940, Walt Disney dá vida a Zé Carioca, personagem inspirado em um brasileiro que, durante uma visita aos Estados Unidos, chamava tudo o que fosse diferente, inovador de “bossa”. Após a gravação de “Chega de Saudades”, a gíria do malandro carioca passaria a denominar a nova batida de João Gilberto, que passou a ser copiada por outros: surgia assim a Bossa Nova.
Na parte pobre da cidade, pouco depois do surgimento oficial da bossa nova, nascia também no Rio a Jovem Guarda, que era mais simples e mais popular, sendo mais fácil de ouvir do que a Bossa Nova e por isso, cairia nas graças do povo mais rapidamente. Encabeçada por nomes como Roberto e Erasmo Carlos, Tim Maia e Jair Rodrigues, a Jovem Guarda consegue superar a popularidade da Bossa Nova, mas nem por isso ofuscar a beleza e genialidade dos bossa novistas, que iniciam o processo de reconhecimento da música brasileira em outros países, pois agora passaria de influenciada pelo Jazz a influenciadora do mesmo. A internacionalização com “Garota de Ipanema” e “Wave” foi selada com uma apresentação de diversos artistas da bossa nova na badalada casa de espetáculos nova-iorquina Carnegie Hall, em 1962. Já a Jovem Guarda conquistaria as donas de casa com suas letras românticas, beirando à brega, mas perpetuando-se até os dias atuais, diferente da Bossa Nova, que, alienada politicamente, não teria espaço no contexto ditatorial em que o Brasil se envolveria a partir de 1964.
A nova leva de baianos que chegou ao Rio de Janeiro e a São Paulo a partir dos anos 1960 trouxe consigo aquilo que seria a nova motivação dentro da música popular brasileira: o engajamento político.
A música de protesto passa a ser divulgada nos festivais de televisão, que haviam transferido os antigos programas de auditório das rádios para os estúdios da TV Record e da TV Tupi. Durante esses festivais, realizados em centros estudantis como o TUCA, da PUC de São Paulo, para um público preocupado com o caminho político adotado após o golpe de 1964.
Gilberto Gil, Caetano e Maria Bethânia e Tom Zé encabeçavam o movimento intitulado “Tropicália”, que evidenciava uma nova mistura de ritmos nordestinos como de Luiz Gonzaga, das músicas de escravos adotadas pelo samba e agora também da nova (velha) batida de João Gilberto, além da influência das músicas de negros de outras partes do mundo, aproveitando elementos do reggae da Jamaica, do blue norte americano e da música africana contemporânea, fazendo jus ao nome “geléia geral”, título de uma música de Gilberto Gil e Torquato Neto de 1963.
A tropicália mantém um ritmo frenético até o final da década de 1970, junto com os Mutantes de Rita Lee e outros grupos de São Paulo. Surge, também na década de 1970, um grupo chamado Os Novos Baianos. Com a genialidade poética de Moraes Moreira e Luis Galvão, a guitarra rock´n roll de Pepeu Gomes e a voz angelical de Baby Consuelo, os Novos Baianos logo passam a se apresentar nos programas de TV e despontam como a grande sensação de 1969.
Toda essa construção feita ao longo do século XX na cena musical brasileira, composta de genialidade e excentricidade dá todo o suporte necessário para o nascimento, já em fins dos anos 1970 e começo da próxima década, do rock brasileiro, com peculiaridades específicas do plano político brasileiro, bem diferente da pretensão de bandas de países mais estabilizados politicamente, como a Inglaterra e os Estados Unidos.
O rock nacional pregava a liberdade, evidenciada no movimento das “diretas já”, da busca pela liberdade de expressão e das organizações estudantis, sendo essenciais para a redemocratização política do cenário brasileiro e, consequentemente, o fim de penosos vinte e um anos de ditadura militar no Brasil.
A partir de então, a música brasileira tem se mostrado sempre aberta a novas influências, tornando cada vez mais difícil a definição de seus rumos e dos novos caminhos da indústria fonográfica no país, assim como no mundo globalizado. Cabe ao garimpeiro da música brasileira o trabalho de evidenciar essa dificuldade e cuidar para que a música popular brasileira continue contribuindo para a identidade pluricultural do país, perpetuando a importância da música nacional para o resto do mundo, vivenciada no passado e hoje mais do que nunca.
13 de maio de 2010
O QUE COMEMORAR NO DIA 13 DE MAIO?
Rio de Janeiro, 13 de maio de 1888. Cerca de 10 mil pessoas se aglomeram em volta do Paço, o palácio do governo na capital federal. É gente do povo, da alta sociedade e autoridades que aguardam a chegada da princesa Isabel para a assinatura da lei de número 3.353, a Lei Áurea, a mais comentada e festejada de toda a história do Brasil até aquela época. Ela encerrava quase quatro séculos de escravidão de negros no Brasil. Hoje, a Lei Áurea faz parte da história. Não é mais comemorada com a mesma alegria de antigamente, nem mesmo pelos negros, os principais beneficiados. Participantes do Movimento Negro no Brasil consideram que a lei foi apenas uma conquista na área jurídica, pois obrigou o fim da escravidão. Mas não houve conquista social: os negros permaneceram marginalizados na sociedade e até hoje lutam contra o preconceito.
O 13 de Maio
Filha do imperador D. Pedro II, a princesa regente Isabel governava o país pela terceira vez, pois seu pai estava doente. No dia 13 de maio, ela chegou ao Paço quase às três horas da tarde, trajando um vestido de seda de cor pérola com rendas. O povo gritava de alegria. Instantes depois, ela assinaria a lei que dava liberdade a todos os escravos do Brasil. Da sacada do Paço, senhoras jogavam flores sobre a princesa e seu marido, o conde D'Eu, que subiam as escadas para ir ao local da cerimônia, a Sala do Trono.
Libertos, mas marginalizados
Um ano e meio mais tarde, a princesa Isabel, que seria a próxima imperatriz e a primeira mulher a governar o país, perdeu o trono com a Proclamação da República, em novembro de 1889. Os presidentes republicanos nunca tomaram nenhuma medida para integrar os ex-escravos e seus descendentes à sociedade. Apesar de libertos, os negros não receberam condições de ascender socialmente e de tornarem-se cidadãos de fato. O preconceito contra eles e a escassez de oportunidades permanece ainda hoje, quando os descendentes de africanos (negros e pardos) são 45% da população brasileira (cerca de 70 milhões de pessoas).
Leis anteriores à abolição
Lei Eusébio de Queirós (1850)
Aprovada em 4 de setembro de 1850, determinou o fim do tráfico de escravos para o Brasil e determinava penas severas para os traficantes. Apesar de proibir o desembarque de negros africanos nos portos brasileiros, os últimos 200 escravos trazidos para o país desembarcaram em Pernambuco em 1855.
Lei do Ventre Livre (1871)
Aprovada em 28 de setembro de 1871, declarava libertos os filhos das escravas nascidos a partir da aprovação da lei. Quem comandou a aprovação da lei, a pedido do imperador d. Pedro II, foi o senador José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco. Por isso, a lei de número 2.040 é também conhecida como Lei Rio Branco. Os defensores da Lei do Ventre Livre afirmavam que ela, junto com a proibição do tráfico negreiro, garantia que a escravidão no Brasil fosse extinta aos poucos. Os donos de escravos, por sua vez, temiam ficar sem mão-de-obra para trabalhar em suas plantações. Eles acusavam o governo de querer provocar uma crise econômica ao decretar essa lei. A Lei do Ventre Livre, porém, teve pouco efeito prático: dava liberdade aos filhos de escravos, mas os mantinha sob a tutela dos donos das mães até os 8 anos ou até completarem 21 anos.
Lei dos Sexagenários (1885)
Lei de número 3.270, aprovada coincidentemente em 28 de setembro e também chamada Lei Saraiva-Cotegipe, libertava os escravos com mais de 65 anos. Esta lei também não ajudou quase nada, pois poucos escravos conseguiam viver mais de 40 anos: trabalhavam demais, comiam pouco e as senzalas não lhes davam nenhum conforto. Além disso, a maioria dos escravos vestia trapos, não tinha roupas quentes para se proteger no inverno e quando ficavam doentes, continuavam trabalhando e não contavam com nenhum
cuidado especial.
Glossário
Pelourinho: coluna de pedra ou de madeira em que eram amarrados escravos e criminosos para castigo público, como chicotadas.
Pau-de-arara: trave de madeira horizontal em que os negros eram amarrados pelas mãos e pelas pernas, ficando suspensos no ar.
A Lei Áurea
O original da Lei Áurea e seu texto
“A Princesa Imperial Regente, em nome de Sua Majestade o Imperador, o senhor D. Pedro II, faz saber a todos os súditos do Império que a Assembléia Geral decretou e Ela sancionou a Lei seguinte:
Art. 1º – É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil.
Art. 2º – Revogam-se as disposições em contrário.”
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* O que disseram os jornais
Veja como a imprensa da antiga capital federal, o Rio de Janeiro, noticiou a assinatura da Lei Áurea e a reação da população:
"Está extinta a escravidão no Brasil. Desde ontem, 13 de maio de 1888, entramos para a comunhão dos povos livres. Está apagada a nódoa da nossa pátria. Já não fazemos exceção no mundo."
O Paiz, 14 de maio de 1888
"Em todos os pontos do império repercutiu agradavelmente a notícia da promulgação e sanção da lei que extingüiu no Brasil a escravidão. Durante a tarde e a noite de ontem fomos obsequiados com telegramas de congratulações em número avultado e é com prazer que publicamos todas essas felicitações, que exprimem o júbilo nacional pela áurea lei que destruiu os velhos moldes da sociedade brasileira e passou a ser a página mais gloriosa da legislação pátria."
O Paiz, 14 de maio de 1888
"O povo que se aglomerava em frente ao Paço, ao saber que já estava sancionada a grande Lei, chamou Sua Alteza, que aparecendo à janela, foi saudada por estrepitosos 'vivas'."
Gazeta da Tarde, 15 de maio de 1888
"Continuaram ontem os festejos em regozijo pela passagem da Lei Áurea da extinção da escravidão. A rua do Ouvidor esteve cheia de povo todo o dia e durante uma grande parte da noite, sendo quase impossível transitar-se por esta rua. Passaram [...] os estudantes da Escola Politécnica, os empregados da câmara municipal e o Club Abrahão Lincoln, composto de empregados da estrada de ferro D. Pedro II, todos acompanhados de bandas de música."
O Paiz, 15 de maio de 1888
"Geral o contentamento, enfim, transbordando da grande alma popular, que andava cantando a epopéia homérica da redenção."
Cidade do Rio, 18 de maio de 1888.
2 de maio de 2010
Pesquisa de uma aluna...
Após uma atividade sobre os conflitos no Oriente Médio, eis o que uma aluna do 7o ano me enviou:
Os jornais escritos e a TV têm relatado quotidianamente o violento conflito no Líbano envolvendo Israel e o grupo Hezbollah, possível seqüestrador de soldados israelenses. Por vezes, a grande opinião pública não tem clareza das origens deste conflito e dos diversos enfrentamentos que ocorrem na região.
É importante perceber que as batalhas do Líbano fazem parte de um contexto maior e este conflito não surge ao acaso, ao mesmo tempo em que não é fruto exclusivo de diferenças religiosas ou étnicas. A disputa no Oriente Médio é uma disputa entre várias nacionalidades pelo direito a um território digno para seus povos.
A grande diferença entre Israel e seus vizinhos é a reivindicação do mesmo espaço geográfico. Nesta luta, os israelenses contam com um auxílio nada desprezível dos EUA e de outras potências da atualidade que dão a este pequeno país um dos mais completos exércitos do mundo. Israel é um dos países que mais recebe investimentos norte americanos em armamentos.
Do outro lado, temos os povos libaneses, palestinos, entre outros. São povos excluídos por este arsenal bélico desde o distante 1948, quando a ONU autorizou a instalação de um Estado judeu nas terras pertencentes naquele momento aos povos palestinos. Foi uma grande vitória do chamado Movimento Sionista, que desde 1897 junto às suas concepções conservadoras, trabalhou no sentido da colonização da palestina dizendo ser uma forma de ajuda aos irmãos judeus mais pobres, o que na verdade é uma retórica que escondeu o verdadeiro projeto sionista que pretendia salvaguardar as riquezas judias do crescente anti-semitismo na Europa entre 1930 e 1940.
Para eles, era melhor enviar boa parte dos descendentes judeus para um lugar como o Oriente Médio cumprindo vários propósitos, inclusive indo além da mística e da religião: há a necessidade de um Estado tampão obediente naquela região islâmica, conflituosa com os interesses norte-americanos pelas concepções histórias do Alcorão.
Apesar das vantagens materiais desde sua fundação, os exércitos israelenses enfrentam dificuldades para combater grupos armados e a ação popular daqueles que são movidos pela necessidade de conquistar terra e justiça nas suas vidas.
Especificamente neste conflito atual, Israel reage de maneira desproporcional afetando a vida de centenas de civis de diversas nacionalidades. Agem por cima das deliberações da ONU, entidade enfraquecida ante as ações das grandes potências e de seus aliados. A ação do Hezbollah se insere num contexto de enfrentamento militar e assim deveria ser enfrentado, sem ameaça para civis.
A agressão israelense no território libanês merece o repúdio internacional e de todos que acreditam na justiça e nos direitos mínimos do cidadão. Israel precisa resolver seus problemas sem colocar em risco a vida de inocentes em todas as faixas etárias. Nada justifica o terrorismo oficial do Estado israelense, nem o combate ao terrorismo não oficial do Hezbollah.
De qualquer maneira, são mínimas as chances de paz enquanto houver o Estado israelense historicamente invasor e agressor das nacionalidades daquela região. Independente da origem semita comum entre israelenses e seus vizinhos (desde os antigos hebreus e filisteus), nem a diáspora judaica nem o holocausto da Segunda Guerra justificam o massacre e o terrorismo estatal perpretado há décadas pelo Estado judeu. A luta pela paz exige justiça e também é uma luta contra o Estado de Israel, por um Estado multiétnico palestino na região e pelo fim dos cemitérios libaneses e palestinos oriundos destes conflitos.
fonte: http://www.duplipensar.net/artigos/2006-Q3/libano-palestina-israel-crise-no-oriente-medio.html
Data de pesquisa: 01/05/10.


