2 de março de 2010

Mercado Especulativo e exportação de capitais - Alunos do 9o. ano (8a. série) do Ensino Fundamental II

Como Funciona o Mercado de Ações

Se você mantiver o seu restaurante funcionando, provavelmente acumulará pelo menos US$ 75 mil neste ano (baseado no histórico do seu negócio). Portanto, você pode considerar o restaurante como um investimento que pagará algo em torno de US$ 75 mil de lucro ao ano. Olhando dessa maneira, alguém poderia querer pagar US$ 750 mil pelo restaurante, já que um retorno anual de US$ 75 mil em um investimento de US$ 750 mil representa uma taxa de retorno de 10%. Alguém poderia querer pagar US$ 1.500.000, o que representa uma taxa de retorno de 5%. Ou até mais, se ele imaginou que a receita do restaurante poderia crescer ao longo do tempo a uma taxa maior do que a inflação.
Portanto, o proprietário do restaurante irá ajustar o preço de forma compatível. Você pode avaliar o negócio em US$ 1.500.000. No entanto, se dez pessoas vierem até você e disserem: "Puxa, eu gostaria de comprar seu restaurante, mas não tenho os US$ 1.500.000", você poderia de alguma forma querer dividir seu negócio em 10 partes iguais e vender cada uma por US$ 150 mil. Em outras palavras, você poderia vender cotas do seu restaurante. Então, cada pessoa que comprou uma cota receberia um décimo dos lucros ao final do ano e teria um dos dez votos em qualquer das decisões financeiras da empresa. Ou então você poderia dividir a propriedade em 1.500 cotas e vender cada uma por US$ 1.000, para ter um preço que mais pessoas pudessem pagar. Outra alternativa seria dividir a propriedade em 3 mil cotas, manter 1.500 com você e vender o restante por US$ 500 cada. Dessa forma, você retêm a maioridade das cotas (e, conseqüentemente, os votos) e permanece no controle do restaurante, enquanto compartilha o lucro com outras pessoas. Enquanto isso, você consegue depositar US$ 750 mil no banco graças às vendas das 1.500 cotas a outras pessoas.
As ações, em sua essência, são realmente muito simples. Elas representam o patrimônio e os lucros da empresa. Os dividendos de uma ação representam a porção da cota dos lucros de uma empresa, geralmente distribuídos anualmente. Se o restaurante tiver dez proprietários, cada um possuindo uma cota acionária, e o negócio acumular US$ 75 mil de lucro durante o ano, então cada proprietário recebe um dividendo de US$ 7.500. Uma grande companhia como a IBM tem milhões de cotas acionárias excedentes, em torno de 1,7 bilhões em fevereiro de 2004. Neste caso, os lucros totais da companhia são divididos por 1,7 bilhões e enviados aos acionistas como dividendos.
Uma medida do valor de uma empresa, pelo menos no que diz respeito aos investidores, é o produto do número de cotas excedentes multiplicados pelo preço da ação. Este valor é chamado capitalização de uma empresa.

Empresas de capital fechado

Se você resolver abrir uma nova empresa, possivelmente o fará como uma Ltda (ou empresa de capital fechado). Vamos supor que a nova empresa tenha cinco sócios, com a mesma participação (20% do total de R$ 100.000,00). Neste caso, cada sócio subscreveu R$ 20.000 do capital da empresa. A empresa então utiliza o capital subscrito para iniciar suas atividades (comprar matéria-prima, pagar instalações e funcionários, etc.).

Vamos supor agora que um sócio decida sair da empresa e os outros decidam comprar sua parte. Neste caso, após decidir o quanto vale esta parcela do capital da empresa (para facilitar vamos supor que valha R$ 20.000) cada um dos sócios restantes pagará R$ 5.000,00, mantendo o capital total em R$ 100.000,00, agora com 25% cada um.
Empresas de Capital Aberto
Uma empresa de capital aberto funciona basicamente da mesma forma. Usando o exemplo acima (os valores serão mantidos somente para facilitar a análise, já que para lançar ações em bolsa os valores devem ser muito mais altos) fica fácil entender o que é uma ação.

Vamos supor agora que os quatro sócios não tenham recursos para comprar a fatia do sócio que resolveu sair. Eles podem optar por abrir o capital da empresa, ou seja, lançar ações. Neste caso eles decidem vender R$ 20.000 do capital da empresa, lançando 20.000 ações a R$ 1,00 cada.

Ao comprar uma ação, você passa a ser sócio de uma empresa, comprando uma participação no capital da mesma. Se a empresa for bem, o preço da ação possivelmente subirá, se as coisas não forem tão bem assim, o preço possivelmente cairá.

Desta forma, através do lançamento de ações, uma empresa aumenta substancialmente o número de acionistas (sócios), obtendo recursos que talvez não estivessem disponíveis de outra forma para investir na empresa. Do ponto de vista do investidor, comprar ações dá a possibilidade dele se tornar um "sócio" da empresa, investindo um valor de acordo com as suas disponibilidades.

Como você não aceitaria ser sócio de qualquer pessoa (ou empresa), é importante ser capaz de analisar o desempenho dessa empresa algo que vamos discutir em mais detalhe na seção de Análise.

Tipos de Ações
Existem dois tipos básicos de ações: preferenciais (PN) e ordinárias (ON).

Ações Preferenciais
São assim chamadas porque dão preferência aos acionistas no pagamento de dividendos e também em caso de liquidação da empresa em relação às ações ordinárias. Isto significa que, no caso de falência, ou outro evento que leve a empresa a ser liquidada, os possuidores de ações preferenciais têm maiores chances de recuperar parte de seus investimentos do que os possuidores de ações ordinárias.


Ações Ordinárias
São aquelas que dão direito de voto ao acionista, algo que não ocorre no caso das ações preferenciais. É importante ressaltar que, apesar de ser um acionista e ter direito a voto, o possuidor de ações ordinárias não é responsável pelas dívidas da empresa (algo que normalmente ocorre em empresas de capital fechado). Assim, o pior cenário que ele pode enfrentar é perder todo o capital investido, ou seja, as perdas são limitadas.

Além destas duas categorias básicas, empresas podem emitir outras classes de ações. Se você analisar com cuidado as ações listadas na Bovespa você encontrará não somente as classes ON e PN, mas também PNA, PNB, PNC, etc. Isto ocorre porque além da distinção básica entre ON e PN, as empresas podem diferenciar as classes de ações de acordo com critérios de distribuição de dividendos, restrição quanto à posse de ações, etc.
Rentabilidade do Investimento em Ações
Para ganhar dinheiro em ações você precisa "comprar a ação antes que outros investidores queiram comprá-la e vendê-la antes que outros investidores resolvam vendê-la". Pode não parecer, mas é mais fácil do que parece! Para isso, você precisa entender os fatores determinantes da rentabilidade de uma ação e se antecipar ao mercado.

Como foi visto na seção anterior, o principal determinante da rentabilidade das ações é o comportamento do preço do papel. O preço das ações é influenciado por uma série de variáveis, que podem ser agrupadas em quatro grupos básicos:
• Macroeconômicas
• Setoriais
• Mercado
• Desempenho da Empresa.
Variáveis Macroeconômicas
Abaixo listamos alguns exemplos de variáveis macroeconômicas o impacto que eles têm no mercado de ações:

Taxa de crescimento da economia - Maior crescimento, de forma geral, leva a maior lucro e alta no preço das ações.

Taxa de juros - Em geral, juros maiores aumentam a rentabilidade da renda fixa, que "concorre" com as ações como alternativa de investimento, além do efeito negativo sobre o balanço das empresas.

Mercado Externo - Além dos efeitos diretos sobre a economia brasileira, qualquer alteração no mercado externo afeta diretamente o mercado de ações brasileiro já que parte dos compradores de ações brasileiras é composta por estrangeiros. Quanto mais compradores estrangeiros, maior pressão de alta no preço dos ativos e vice-versa.

Variáveis setoriais
Definem eventos que afetam especificamente o setor de atividades em que a empresa atua. Para facilitar o entendimento, vamos usamos o setor de celulose como exemplo. Um aumento no preço internacional da celulose afeta positivamente as ações do setor (aumento de receitas e lucro potencial). Outras variáveis são possíveis inovações tecnológicas (por exemplo, um processo produtivo mais eficiente), mudanças nos preços de matérias primas, mudança no perfil dos concorrentes internacionais, mudanças na legislação, etc.

Variáveis de Mercado
Outros fatores que influenciam o preço das ações alterações específicas nas condições de compra e venda de ações.

Dentre os principais fatores podemos citar: a) Impostos (ex. maiores impostos sobre aplicações em ações podem desencorajar esta forma de investimento, conseqüentemente afetando os preços) e b) Mudanças nas regras de investimento dos investidores institucionais (ex. fundos de investimento, fundos de pensão, companhias de seguro).

Desempenho da Empresa
Além dos elementos que influenciam a situação financeira da empresa (mudanças em preços dos produtos produzidos e de matérias primas, aumento ou redução no endividamento, etc.), é importante observar mudanças na perspectiva de novo negócios (tais como novos contratos, aquisições de outras empresas, busca de parceiros, etc.) e alterações na estrutura acionária. Alguns desses elementos são discutidos em detalhe na seção Como Analisar uma Ação.

Outras Variáveis que Afetam Rentabilidade
Além do preço da ação, a rentabilidade de um investimento no mercado acionário também depende de outras variáveis, sobretudo do nível de dividendos, bonificações, tributação e corretagem.

Dividendos
Quando uma empresa paga dividendos, ela está distribuindo aos acionistas parte do seu lucro no período. Se a empresa anuncia um dividendo de R$ 2,00 por ação e você tiver 1.000 ações, então receberá R$ 2.000,00 em dinheiro, que será enviado à sua conta.

Em geral o valor do dividendo é variável, dependendo do resultado da empresa no período e da política interna de dividendos de cada empresa. Algumas empresas (em geral as maiores e mais estabelecidas no mercado) preferem pagar dividendos mais altos; enquanto outras decidem reinvestir na empresa a maior parte dos lucros gerados. A periodicidade de pagamento dos dividendos também não é definida e pode ser trimestral, semestral ou anual.

Bonificação
Quando uma empresa faz um aumento de capital, mediante a incorporação de reservas e lucros, algumas ações são distribuídas gratuitamente para os seus acionistas, em número proporcional às já possuídas. Isso não implica em alteração patrimonial, pois o preço em bolsa é reajustado proporcionalmente.

Subscrição
Em geral, quando uma empresa faz um aumento de capital, os acionistas têm direito de preferência na aquisição de um novo lote de ações - em quantidade proporcional às possuídas. Os acionistas podem transferir o direito de subscrição a terceiros, através de venda desse direito na Bolsa.

Tributação:
O nível atual de tributação no mercado de ações é composto de:

Imposto de renda: a alíquota de 15% é aplicada sobre os ganhos de capital (diferença entre o preço médio de aquisição da ação e o que você recebeu pela venda). Essa alíquota vale para todos os tipos de operações nos vários mercados de ações, com exceção das operações de day trade em que a alíquota é de 20%.

Isenção
Desde janeiro de 2005, os ganhos obtidos com a venda de ações no mercado a vista cujo valor de alienação é inferior a R$ 20 mil durante o mês estão isentos do pagamento de IR. Vale ressaltar que, na determinação do preço médio de compra da ação, é possível incluir as despesas com corretagem, taxas ou outros custos necessários à realização da compra/venda das ações, o que acaba reduzindo o montante do ganho de capital.

Recolhimento
Desde janeiro de 2005 foi introduzido o recolhimento em fonte sobre as aplicações em ações, sendo aplicada uma alíquota única de 0,005% sobre o valor da alienação no mercado a vista. Esta alíquota é aplicada em todas as operações com ações, com exceção das de day trade cuja alíquota é de 1%.

Nos fundos de ações o imposto é recolhido na fonte pelo administrador do fundo, mas nas demais operações com ações, independente do mercado, o imposto deve ser recolhido pelo investidor. Mensalmente o investidor deve apurar se obteve ganho, ou perda nas operações no mercado de ações e, em caso de ganho (considerando valor acumulado de vendas acima de R$ 20 mil), o imposto devido deve ser recolhido até o último dia útil do mês subseqüente.

Corretagem
Além dos impostos acima, os investidores também devem pagar uma taxa de corretagem que é cobrada por sua corretora. Esta taxa, de forma geral, varia de acordo com o valor da aplicação. A entrada das corretoras on-line no mercado brasileiro, porém, pressionou algumas corretoras tradicionais a reduzir suas taxas de corretagem. Em geral, as corretoras on-line cobram cerca de 0,5% por operação ou valores fixos, que variam, na maior parte dos casos, entre R$ 10 e R$ 20 por transação.

Outros custos
Apesar de tributação e corretagem serem os maiores custos associados à negociação de ações é preciso mencionar alguns outros como, por exemplo:

Custódia: taxa fixa que você tem que pagar à instituição que guarda e administra suas ações. Pode ser cobrada mensalmente , trimestralmente ou mesmo de forma anual, dependendo da instituição. Além disso, existe o custo de 0,008% de liquidação e custódia de títulos que deve ser pago sobre o valor da operação no momento da compra das ações.

Emolumentos: taxa paga à Bolsa de Valores por conta dos negócios de compra e venda serem realizados em suas instalações. A Bovespa cobra sobre o valor financeiro negociado emolumentos. Esses custos variam de acordo com o tipo de operação e mercado em que a mesma foi efetuada, entre 0,0055% e 0,027%. Por exemplo, as operações de day trade no mercado à vista pagam uma taxa de 0,019%, enquanto as demais operações nesse mercado pagam uma taxa maior, de 0,027%. Esses valores não incluem a taxa de liquidação de 0,08% discutida acima.

4 de fevereiro de 2010

Mussum - Água benta


Abaixo, um link do saudoso mussum, gravado em 1978.

http://www.4shared.com/file/185168133/700de6e5/1978_-_gua_Benta.html

2 de fevereiro de 2010

Alegoria da MPB

A cultura brasileira constituiu-se ao longo do tempo das mais diversas fontes e influências para a construção de sua concepção musical. Aproximando a música indígena, os ritmos africanos e a música tradicional européia, o povo brasileiro constrói uma “geléia geral” musical, evidenciada por Varnhagen no século XIX1 e perpetuada na sociedade contemporânea. Esclarecer esse caminho e discutir sobre os novos rumos da música no Brasil tem sido objeto de estudo para as diversas áreas que tratam da cultura brasileira. Essa produção buscará contribuir para esses estudos, utilizando uma abordagem historiográfica da cultura brasileira, sua construção e direções no processo histórico do país.

José Ramos Tinhorão relaciona a evolução social do Brasil com a dominação econômica e a dependência da cultura estrangeira2. Durante o período colonial, a sociedade brasileira - composta em sua maioria por negros e europeus – é moldada a partir de influências sócio-culturais dos povos que criarão a identidade nacional. Francisco Adolfo de Varnhagen - historiador do século XIX e membro-fundador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) - foi responsável pelas primeiras pesquisas sobre a identidade do povo brasileiro, onde busca informações acerca dessa composição conjunta com o estrangeirismo, que influenciava a cultura de maneira majoritária. Sua explicação para esse fenômeno não foi aceita primeiramente e o IHGB, órgão pensante acerca da identidade nacional no Brasil Imperial, tentou até mesmo a eugenia, julgando a presença do negro e do índio insignificante para a construção dessa identidade.

As medidas adotadas somente fortaleceram a presença multicultural nas camadas sociais, que, como seria para Mark Block (obra p.), seriam a responsável pela história vista de baixo, já que por um lado ritmos como o lundu, a congada e o fado faziam parte do cotidiano das baixas camadas sociais e, por outro lado, o choro, o romantismo e as cantigas portuguesas passam a invadir os bailes e salões na segunda metade do século XIX. Não que os ritmos africanos e indígenas eram bem aceitos pela alta sociedade brasileira do período imperial, mas a mistura de ritmos passou a ser apreciada por essa camada social à medida que mostrava suas influências tanto na senzala quanto na casa grande3.

Durante o início do século XX – a chamada “belle époque brasileira” -, após a proclamação da república, a música popularesca era composta de valsas, polcas e mazucas vindas da Europa, mas também dos Estados Unidos, que iniciara seu processo de criação musical em torno da música folk, do campo. No Brasil, a música sertaneja, de seresta, empolgava as pequenas multidões rurais, conglomerados de pequenas centenas de habitantes, mas que compartilhavam o mesmo cotidiano. Retratar o cotidiano foi a postura adotada pelos escravos do jongo ou da congada no período colonial, e esta será a postura adotada durante a belle époque brasileira no campo.

Nas cidades, as quais cresciam vorazmente - apesar da dominação social exercida pelos latifundiários -, o sentimento era mais importante, já que a grande maioria da população era composta pelo proletariado e, apesar dos bailes e festas dos donos de propriedades, reunia-se nos subúrbios, na periferia, onde a criação musical representava o cotidiano suburbano. Nascia assim os primeiros sambas, em contrapartida aos ritmos europeus e estadunidenses presentes no imaginário da época.

A música negra cantada nas senzalas passa a se adaptar à vida nos morros do Rio de Janeiro e São Paulo, primeiramente na cidade maravilhosa. Os núcleos urbanos no Rio, devido a sua arquitetura4, proporcionavam a aproximação do operariado, do contingente de funcionários domésticos e pequenos comerciantes. Os teatros em revistas eram o primeiro passo para tornar essas músicas nacionalmente conhecidas, não só no campo musical, como também no campo teatral5. As revistas teatrais serviriam como trampolim para a inserção da música popular do morro nos núcleos aristocráticos.

As revistas do Rio de Janeiro do início do século XX eram direcionadas para o teatro, onde a música entraria nas primeiras edições em segundo plano. Com o passar do tempo e com o sucesso nacional das músicas divulgadas nesses selos, que futuramente seriam responsáveis pelas tiragens de discos, como a gravadora Chantecler, os músicos entraram na onda das revistas de teatro, atraindo público cada vez mais constante nas apresentações ao vivo. O preço do ingresso para esses shows era irrisório, pois os mesmos eram feitos ao ar livre e com a participação de músicos que ainda estavam no anonimato, atraindo multidões para as praças públicas do Rio de Janeiro. Em um desses eventos, ocorrido antes do carnaval de 1911 com o intuito de divulgar as músicas do carnaval daquele ano, contou com a participação de uma música de Nicolino Milano que logo após a apresentação estava sendo entoada em todos os cantos da cidade6. Esse foi o primeiro fado adaptado para o carnaval, apesar da existência da já famosa marchinha de Chiquinha Gonzaga “Ó abre alas”, criada em 1909, também com cadências do fado. Dessa mistura de ritmos europeus, como o fado e a polca, nascia a marchinha, que viria a ser o carro-chefe dos carnavais cariocas.

Chiquinha Gonzaga já era considerada uma grande maestrina nos autos de 1910. Seu estilo livre, desprendido das regras tradicionais e misturando os ritmos existentes em suas canções, se tornaria a precursora das marchinhas escritas em pautas, lançadas inicialmente nas revistas teatrais, direcionada para a sociedade “belle époque” brasileira, que, por pura ironia, apresentava críticas sociais a essa mesma classe ouvinte, aproximando-se ainda mais do público e iniciando o processo de popularização da música direcionada somente a alta sociedade da época até então. Tangos, maxixes, polcas e fados, além das músicas de senzala do período colonial, como o jongo, seriam os responsáveis por influenciar os artistas populares e iniciar o processo de criação de um novo ritmo musical nascido na periferia da cidade: o samba entoados nos morros.

O samba - nomenclatura que em dialetos bantu significa “umbigada” – expressava no morro todo o descontentamento com os governos oligárquicos e se aproveitavam da sutileza do jongo para alfinetar a classe mais abastada. A identificação popular com as músicas para o teatro era tanta que, após 1915, as rádios passam a inseri-las em sua programação, aproveitando músicos como Pixinguinha, Ari Barroso e Sinhô, além, é claro, da própria Chiquinha Gonzaga, tornando-se a grande sensação em todos os meios sociais cariocas, do morro às mansões da zona sul, lançando assim um dos maiores patrimônios culturais brasileiros.

A música popular modifica-se ao longo do tempo, mas mantém o mesmo viés da música dos séculos anteriores, que buscavam inserir em suas canções todos os gêneros musicais existentes, refinando cada vez mais a qualidade musical e a peculiaridade única da nossa MPB.

Em 1917, é gravado o primeiro samba. Donga e seu “Pelo telefone” utiliza-se de elementos do samba enredo e marchinhas para dar vida ao personagem que fará história até hoje no cotidiano da música popular brasileira: evidenciava-se assim a vida do malandro como expoente para o novo estilo musical.

Após a gravação de “Pelo telefone”, o samba inicia um novo caminho traçado por seus autores involuntariamente: se torna um produto comercializado nas rádios, meio de comunicação que surge no início do século e que, a partir de 1920, passa a entreter a vida das famílias de classe média dos centros urbanos.

Em 1930, Getúlio Vargas torna-se presidente do Brasil através de um golpe popular. Sua política logo se mostrou populista e nacionalista, inspirada pelos governos autoritários da Itália de Mussolini e de Portugal de Salazar. Vargas utiliza o rádio como meio de divulgação de suas idéias populistas, e começa a fazer propaganda política em meio a programação cultural das transmissoras, que, receosos com a queda da audiência, passam a incorporar em sua programação o samba, ouvido por todos os grupos e admirado tanto por membros da elite carioca quanto pelos empregados dos mesmos, ajudando a incorporar o nacionalismo como forma de união de diferentes grupos sociais.

Assim o samba começa a ser conhecido por todo o Brasil, fundindo-se com ritmos regionais, principalmente no nordeste do país, onde a cultura regionalista é mais acentuada. Após a saída de Vargas em 1945, o samba já era conhecido em todo o Brasil. Nas vozes de Orlando Silva, Cauby Peixoto, entre outros, o samba passou a incorporar aspectos de boleros, chorinhos e serestas.

João Gilberto, baiano de Juazeiro, adorava ouvir as músicas da época no auto-falante da praça central da cidade. Ainda garoto, sonhava em ir morar na capital para fazer sucesso como crooner de um grupo vocal, a nova sensação nos bailes do Rio. O que João não imaginava era que em seu destino havia algo muito maior do que ser apenas um cantor de um grupo vocal...

João Gilberto cantava muito bem. Com uma voz forte, conseguia imitar com perfeição a voz de Orlando Silva nos bailes locais e logo se mudara para Salvador, onde ficou por pouco tempo, pois ao dedicar sua vida à arte não imaginava que seria tão difícil sobreviver somente dela. Voltou a Juazeiro mas recebeu um convite para substituir Lúcio Alves em um conjunto vocal no Rio de Janeiro. Era a chance que estava esperando e, sem se lembrar das dificuldades que vivenciou em Salvador, parte para o Rio de Janeiro em 1950.

Dos grupos vocais surgiriam nomes como João Donato, Garoto e João Gilberto, reconhecidos como grandes músicos hoje, mas na época eram jovens com grande curiosidade musical. Junto com outros meninos da classe média carioca, se reuniam em fã-clubes para ouvir Frank Sinatra e o brasileiro Dick Farney (que estava fazendo um tremendo sucesso no exterior). Esses fã-clubes eram bem fechados em estilos concretos, havendo poucas aceitações daquilo que fosse diferente dos grandes ícones musicais dos anos 1950. Como Dick havia conseguido seu reconhecimento no exterior, o sonho americano dos jovens de classe média passou a ser mais constante.

A rivalidade dos fã-clubes e a influência do Jazz e da música branca norte-americana dominaram esse período no Brasil, mas após 1954 o samba volta a falar mais alto dentro da Bossa Nova de “Chega de Saudades”.

João Gilberto, agora cantando baixinho, conseguia obter do violão uma batida muito diferente do samba, do jazz ou do blues, mas ao mesmo tempo, com elementos de todos os ritmos ouvidos na época facilmente detectados.

No início da década de 1940, Walt Disney dá vida a Zé Carioca, personagem inspirado em um brasileiro que, durante uma visita aos Estados Unidos, chamava tudo o que fosse diferente, inovador de “bossa”. Após a gravação de “Chega de Saudades”, a gíria do malandro carioca passaria a denominar a nova batida de João Gilberto, que passou a ser copiada por outros: surgia assim a Bossa Nova.

Na parte pobre da cidade, pouco depois do surgimento oficial da bossa nova, nascia também no Rio a Jovem Guarda, que era mais simples e mais popular, sendo mais fácil de ouvir do que a Bossa Nova e por isso, cairia nas graças do povo mais rapidamente. Encabeçada por nomes como Roberto e Erasmo Carlos, Tim Maia e Jair Rodrigues, a Jovem Guarda consegue superar a popularidade da Bossa Nova, mas nem por isso ofuscar a beleza e genialidade dos bossa novistas, que iniciam o processo de reconhecimento da música brasileira em outros países, pois agora passaria de influenciada pelo Jazz a influenciadora do mesmo. A internacionalização com “Garota de Ipanema” e “Wave” foi selada com uma apresentação de diversos artistas da bossa nova na badalada casa de espetáculos nova-iorquina Carnegie Hall, em 1962. Já a Jovem Guarda conquistaria as donas de casa com suas letras românticas, beirando à brega, mas perpetuando-se até os dias atuais, diferente da Bossa Nova, que, alienada politicamente, não teria espaço no contexto ditatorial em que o Brasil se envolveria a partir de 1964.

A nova leva de baianos que chegou ao Rio de Janeiro e a São Paulo a partir dos anos 1960 trouxe consigo aquilo que seria a nova motivação dentro da música popular brasileira: o engajamento político.

A música de protesto passa a ser divulgada nos festivais de televisão, que haviam transferido os antigos programas de auditório das rádios para os estúdios da TV Record e da TV Tupi. Durante esses festivais, realizados em centros estudantis como o TUCA, da PUC de São Paulo, para um público preocupado com o caminho político adotado após o golpe de 1964.

Gilberto Gil, Caetano e Maria Bethânia e Tom Zé encabeçavam o movimento intitulado “Tropicália”, que evidenciava uma nova mistura de ritmos nordestinos como de Luiz Gonzaga, das músicas de escravos adotadas pelo samba e agora também da nova (velha) batida de João Gilberto, além da influência das músicas de negros de outras partes do mundo, aproveitando elementos do reggae da Jamaica, do blue norte americano e da música africana contemporânea, fazendo jus ao nome “geléia geral”, título de uma música de Gilberto Gil e Torquato Neto de 1963.

A tropicália mantém um ritmo frenético até o final da década de 1970, junto com os Mutantes de Rita Lee e outros grupos de São Paulo. Surge, também na década de 1970, um grupo chamado Os Novos Baianos. Com a genialidade poética de Moraes Moreira e Luis Galvão, a guitarra rock´n roll de Pepeu Gomes e a voz angelical de Baby Consuelo, os Novos Baianos logo passam a se apresentar nos programas de TV e despontam como a grande sensação de 1969.

Toda essa construção feita ao longo do século XX na cena musical brasileira, composta de genialidade e excentricidade dá todo o suporte necessário para o nascimento, já em fins dos anos 1970 e começo da próxima década, do rock brasileiro, com peculiaridades específicas do plano político brasileiro, bem diferente da pretensão de bandas de países mais estabilizados politicamente, como a Inglaterra e os Estados Unidos.

O rock nacional pregava a liberdade, evidenciada no movimento das “diretas já”, da busca pela liberdade de expressão e das organizações estudantis, sendo essenciais para a redemocratização política do cenário brasileiro e, consequentemente, o fim de penosos vinte e um anos de ditadura militar no Brasil.

A partir de então, a música brasileira tem se mostrado sempre aberta a novas influências, tornando cada vez mais difícil a definição de seus rumos e dos novos caminhos da indústria fonográfica no país, assim como no mundo globalizado. Cabe ao garimpeiro da música brasileira o trabalho de evidenciar essa dificuldade e cuidar para que a música popular brasileira continue contribuindo para a identidade pluricultural do país, perpetuando a importância da música nacional para o resto do mundo, vivenciada no passado e hoje mais do que nunca.