21 de fevereiro de 2011

Cientistas debatem se fóssil da Ardi era de humana ou macaca

 RICARDO BONALUME NETO
FOLHA DE S. PAULO, 21/02/2011.

Macaca ou humana? O fóssil da pequena Ardi, uma criatura 1,2 metro e 50 kg que viveu há 4,4 milhões de anos, despertou um furioso debate agora que um artigo na "Nature" colocou mais dúvidas sobre ela ser de fato um ancestral humano.
Batizada com o nome científico Ardipithecus ramidus, sua descrição detalhada na "Science" em 2009 se tornou a descoberta do ano. O fóssil foi declarado o mais espetacular achado paleontológico desde a escavação de Lucy, em 1974, com 3,2 milhões de anos. 
 Desenho simula a aparência de Ardi, fóssil achado na Etiópia; cientistas discutem se era ou não ancestral do homem

Os paleontólogos sempre especularam sobre como seria a forma do ancestral comum, se algo intermediário entre o humano e os grandes macacos africanos. "Nós vimos o ancestral, e não é um chimpanzé", declarou Tim White, da Universidade da Califórnia em Berkeley, que chefiou os estudos.
Ardi é o grande achado de White e colegas. Por isso, é compreensível que não gostem da ideia de que ela seja apenas uma macaca velha.
"Ardipithecus ramidus é apenas 200 mil anos mais velho que o Australopithecus anamensis. Mesmo com a melhor boa vontade do mundo eu não consigo ver o Ardipithecus ramidus evoluindo para o Au. anamensis", disse à Folha um dos autores do artigo da "Nature", Bernard Wood, da Universidade George Washington.
O outro autor do mesmo trabalho é Terry Harrison, da Universidade Nova York. "Não há absolutamente nada de novo nesse artigo", reagiu White, em declaração à Folha sobre o artigo de Wood e Harrison, que criticam a humanidade de Ardi.
O principal argumento da dupla é que White e colegas não teriam considerado a hipótese de "convergência evolutiva", isto é, o mesmo traço anatômico --a forma de um osso, por exemplo-- surgir em espécies que não são diretamente relacionadas.
A ancestralidade humana de Ardi já tinha sido criticada no ano passado na própria "Science" por Esteban Sarmiento, primatologista da Fundação Evolução Humana, em Nova Jersey.
Para ele, o Ardipithecus é um quadrúpede palmígrado, que se apóia nas plantas das quatro patas, e não um bípede, como dito por White.
Sarmiento não gostou nem da réplica de White e colegas publicada na mesma "Science", nem do novo artigo de Wood e Harrison.
"Para ser capaz de decidir sobre as relações ancestral-descendente entre macacos vivos e fósseis, nós precisamos olhar para traços suficientemente complexos de modo a deixarem um registro de convergência na anatomia", declarou Sarmiento.
Segundo ele, a dupla, com base nos mesmos traços anatômicos, aceita que o Australopithecus seja da linhagem humana, mas não o Ardipithecus.

17 de fevereiro de 2011

Entrevista com Rodrigo Mac Niven - Produtor do Documentário "Cortina de Fumaça"

Fonte : http://www.brasilnorml.org/

Em entrevista concedida com exclusividade à Brasil NORML, o jornalista Rodrigo Mac Niven, produtor do documentário “Cortina de Fumaça”, falou um pouco mais sobre a legalização da maconha no Brasil e a falta de informação da sociedade em relação ao assunto.
Para ele, antes de haver o debate sobre qual a melhor política, é preciso fornecer à população subsídios para que ela possa fazer esta escolha com o pé no chão. Porém, a falta de acesso à informações precisas e confiáveis acaba cegando as pessoas contra a real situação das drogas.
Brasil NORML: Quando você decidiu produzir um documentário que falasse sobre Maconha?
Rodrigo Mac Niven: Por volta de 2008 eu estava lendo o livro do Denis Russo (Coleção Super Interessante Para Saber Mais Volume 4 – Maconha) e percebi que eu desconhecia noventa por cento daquelas informações que estavam ali. O que me chamou mais a atenção foi descobrir que a Maconha tem um papel super importante dentro das políticas anti-drogas. Eu decidi então que queria investigar mais o assunto e, já em Maio de 2009, viajei para Europa para começar a gravar o filme. A primeira parada foi a Feira Cannatrade, na Suiça. Foi tudo no “esquema colaborativo”, digamos assim. Liguei para o organizador da feira, expliquei minhas intenções e ele me colocou lá dentro.
BN: Qual era seu objetivo quando teve esta ideia?
RMN: A primeira ideia era criar um debate, tanto que eu explicava aos entrevistados que eu não estava levantando nenhuma bandeira, que apenas queria promover uma discussão. Mas ao longo do tempo reparei que eu mesmo era ignorante sobre o assunto, e, portanto, precisava levantar mais informações. Pois como era possível debater se, assim como eu, as pessoas eram carentes de informações básicas sobre a maconha? Então, mudei meu objetivo e resolvi pesquisar a fundo a questão sobre políticas anti-drogas e sobre as pesquisas medicinais . Mas a minha maior preocupação era passar esta informação com credibilidade, para que o espectador não pensasse que eu estava tentando convencê-lo do meu ponto de vista. Pelo feedback que tenho recebido, acho que atingi este objetivo.
BN: Depois de toda sua pesquisa, qual a sua opinião sobre o consumo de maconha e as políticas anti-drogas no Brasil?
RMN: Eu sempre achei que a proibição da maconha era meio “over”, mas, como todo mundo, eu ficava no achismo. Hoje estou mais convencido de que a legalização é a política mais adequada. Eu acho que o consumo, ou o desejo de usar qualquer tipo de droga não deve ser reprimido, porque isso não cabe ao Estado. Mas existe uma certa confusão entre liberar e legalizar. Legalizar é colocar dentro da lei, é regulamentar. Principalmente o uso medicinal, que não tem mais como ser contestado. Na minha opinião, o desafio, hoje, é comunicar. É oferecer informação relevante à população. Porque a atual política proibicionista é muito danosa à sociedade. O próprio filme fala sobre isso, que a origem do uso de drogas está no desespero, na pobreza. E a repressão vem para mascarar estas origens. Agora, eu penso que a legalização também não resolveria o problema da violência, mas, com certeza, ajudaria a diminuí-la.
BN: Você acha que o Brasil está, hoje, preparado para uma política de legalização?
RMN: Acho que não. Quero dizer, eu não tenho tanta informação sobre o sistema de saúde no Brasil e também não acredito que isso aconteça de uma hora para outra. Recentemente, até tentaram avançar nesta questão através do relaxamento da pena para usuários, mas a gente sabe que, no final, essa mudança apenas piorou a situação do pobre, pois o enquadramento como usuário não virou circunstancial. Eu acredito que a primeira medida a ser tomada deve ser a liberação do plantio, pois a maconha tem um ciclo diferente. É a única droga que você pode plantar, colher e consumir no mesmo lugar. Só esta medida já reduziria a procura pela droga através do tráfico. A segunda medida é a legalização do uso medicinal. Ainda existem muitos médicos que não aceitam as propriedades terapêuticas da maconha, mas isso já está mais que provado. Deve-se, no entanto, atentar para um possível monopólio por parte dos laboratórios, o que prejudicaria o cultivo caseiro.
BN: Como o filme foi uma produção independente, você encontrou alguma dificuldade durante o sua elaboração?
RMN: Por incrível que pareça, não. Não tive quase nenhuma dificuldade. Depois que fui bem recebido na feira da Suiça, resolvi falar com o Gabeira. E achei que seria muito difícil e tal. Mas foi um processo relativamente fácil e sem grandes dificuldades. É óbvio que houve um trabalho intenso de assessoria, telefonemas e envio de e-mails, mas todos foram muito receptivos. É como se todo mundo já estivesse querendo falar sobre isso há muito tempo. Mesmo quando viajei para o exterior, e me identificava como jornalista brasileiro, fui bem recebido. As pessoas conhecem o Brasil e sabem que é um país enorme. Elas viam no Brasil a possibilidade de influenciar as políticas anti-drogas latino-americanas.
BN: Você não teve medo de sofrer algum tipo de represália do governo?
RMN: Eu tive ajuda de um advogado que orientou todo o trabalho, para evitar esse tipo de problema. Ele foi mais um consultor, digamos assim. De qualquer forma, eu não me preocupei muito com isso, porque, afinal, aqueles depoimentos não eram a minha fala, mas sim de pessoas gabaritadas e experientes dividindo o seu conhecimento. Nada mais.
BN: Você tem planos de lançar outros trabalhos sobre o assunto?
RMN: Tenho alguns projetos andando em conjunto com o grupo Coletivo, do qual participo, que é basicamente um grupo de produção de ideias, onde existem pessoas pensando assuntos não só sobre políticas anti-drogas, que atualmente é o nosso carro-chefe, mas também sobre questões sociais, corrupção e, por aí vai… O Coletivo seria a minha iniciativa ativista, visando produzir informação com credibilidade. Futuramente, pensamos em produzir mais curtas-metragens para democratizar o acesso. Um longa traz bastante conteúdo, mas demora muito tempo para ficar pronto. Hoje a sociedade é altamente audiovisual, por isso este formato tem muito apelo. Como o excesso de texto não é atrativo, queremos levar conhecimento através de pequenos vídeos.
BN: E quando será a próxima exibição do Cortina de Fumaça?
RMN: Fechamos mais uma exibição independente em São Paulo, no espaço Matilha Cultural, mas a datas ainda serão confirmadas.

14 de fevereiro de 2011

Coreia do Norte: a republica ermitã


O isolamento internacional e o militarismo norte-coreano tem profundas raízes no passado
por Christophe Courau
Retirado de: http://historianovest.blogspot.com/2009_05_01_archive.html
Acessado em: 02/2011.

Han-ung, filho do deus do céu, sente-se aborrecido no paraíso. Ele desce, então, à Terra e surge ao pé de uma árvore de sândalo, sobre o monte Taebaek. Alguns animais, entre os quais uma ursa, pedem a ele que lhes concedam forma humana. O novo rei ordena: Façam um retiro de cem dias no fundo de uma caverna, levando como alimento 20 dentes de alho e um buquê de artemísia. Só a ursa segue as suas instruções e é, assim, transformada em mulher. Han-ung casa-se com ela e lhe dá um filho: Tan-gun, que se torna o primeiro coreano. Este evento é datado com precisão, 2333 a.C., e ainda é comemorado na Coreia com o nome de festa da abertura do Céu.
Esta é a lenda. A realidade é menos poética. Desde o fim da II Guerra mundial, a Coreia dividiu-se em dois países: uma ditadura ao Norte e uma democracia ao Sul. Há mais de 50 anos, o regime despótico estabelecido – com a ajuda da China de Mao – por Kim Il-sung e prolongado por seu filho, Kim Jong-il, não deixou de oscilar entre posições opostas. O último avatar dessa política é a chantagem nuclear, com o anúncio do relançamento de uma central nuclear e de ameaças diretas contra os Estados Unidos. Antes de a Coreia tornar-se um país, a China esteve presente nesta península da Ásia oriental quando, em 108 a.C., o imperador Wou-ti, da dinastia Han, invadiu a região. Wou-ti funda no oeste e no centro da região quatro prefeituras, com o núcleo político em Loiang (perto da atual Pyongyang). Este protetorado chinês não impediu, entretanto, os coreanos de constituir, entre o século I e o início do século IV, o país dos Três Reinos: o Koguryo, ao norte, o Paikche, a sudoeste e o Silla, a sudeste. Esses reinos rivalizaram entre si até o século VII. A supremacia passa de Koguryo para Silla, que atinge o apogeu entre 670 e 780. Fundada em 918, na Coreia Central, a dinastia de Koryo submete o reino de Silla, e unifica a Coreia. A capital passa a ser Songdo (atual Kaesong).
A partir de 1231, inicia-se uma guerra de 30 anos contra os mongóis de Gengis Khan, que dominam os coreanos. Os mongóis estimulam os coreanos a conquistar o Japão, mas duas tentativas nesse sentido, em 1274 e 1281, fracassam. Em 1364, um jovem guerreiro coreano, Li Song-gye, aproveita-se do declínio dos mongóis, expulsa-os da península, e restabelece a unidade coreana. Coroado rei, funda, em 1392, a dinastia Li (ou Yi), que reinará na Coréia até 1910. Conforme explica André Fabre em sua História da Coreia , o país torna-se Choson, ou país da manhã fresca, expressão que uma tradução errônea transformou em país da manhã calma. O poder de Li não mais se apóia no budismo, mas no confucionismo. A nova capital passa a ser em Seul. Desde 1401, o governo emite papel-moeda, abre cinco escolas na capital e institui novo alfabeto de 28 letras, empregado até hoje. Mas a renovação coreana não teve tempo para se desenvolver: os japoneses, em 1592 e 1598, e depois os manchus, em 1627 e 1638, invadem o país. Choson não consegue se restabelecer após essa dupla invasão. A Coreia isola-se do mundo e torna-se o reino eremita que não pode ser visitado por nenhum ocidental.
Um primeiro contato, porém, ocorre em 1653, quando um navio holandês afunda em suas costas. Os marinheiros são bem tratados, mas aprisionados. Em 1668, oito desses marinheiros conseguem escapar e chegar ao Japão. Entretanto, apenas no século XIX outros ocidentais interessaram-se pelo reino eremita. Em 1816, 1832 e 1833, os ingleses propõem o estabelecimento de relações comerciais aos coreanos, que recusam.
O perigo vem também do interior. Uma religião, o catolicismo, importada pelos chineses, ganha adeptos entre os letrados do reino. Chamada de a ciência do Senhor do céu, a nova crença é mal vista pelas autoridades. As obras católicas são confiscadas na fronteira. Em 1791, dois cristãos são executados por terem queimado as inscrições de seus ancestrais, crime supremo aos olhos do confucionismo, explica André Fabre. Em 1801, há nova repressão aos católicos, com 300 mortos. Em 1837, um missionário, o padre Philibert Maubant, é o primeiro estrangeiro a entrar na Coreia e inicia clandestinamente a catequização. Mas, descoberto em 1839, é executado. O governo francês exige justificativas da Coréia, mas não é atendido. Em 1866, ocorre um grave incidente. Uma navio americano, o General Sherman, aparece na embocadura do rio Taedong. Depois de alguns incidentes com a população local, o navio é incendiado e a tripulação assassinada.
No mesmo ano, o almirante francês Roze embarca para a Coreia com sete navios e desembarca na ilha de Kanghwado em 13 de outubro. A fortaleza e a cidade são tomadas após fraca resistência, e, alguns dias mais tarde, os franceses decidem atacar o mosteiro situado numa colina da ilha. Os comandados do almirante Roze não sabem que o mosteiro é ocupado por uma guarnição de caçadores. Os 170 franceses avançam a descoberto e são recebidos por fogo cerrado. Vinte e quatro horas mais tarde abandonam a ilha.
Os ocidentais recuaram, mas a determinação dos japoneses será incansável. Em 1875, um navio japonês ancora perto de Icheon e os tripulantes são atacados pelos habitantes. Um ano depois, os japoneses retornam, mais bem preparados, e obrigam os coreanos a assinar um tratado de comércio. Em 1822, porém, uma insurreição popular os expulsa. Quando os japoneses voltam, a Coréia aceita pagar uma indenização e concede a Tóquio o direito de dispor de uma guarnição militar em Seul. O Império do Sol Nascente afirma, assim, sua presença no “país da manhã fresca”. O Japão apóia o partido reformista, ao passo que a China apóia os conservadores. Após a guerra sino-japonesa de 1894-1895, o Japão, pelo tratado de Shimonoseki, de 1895, afasta a China, que é obrigada a reconhecer a independência da Coreia. Resta ainda um obstáculo para a expansão nipônica: a Rússia. É acordada uma partilha provisória russo-nipônica em 1896, mas, em 1904, as duas potências entram em guerra. O Japão é vencedor e, no tratado de Portsmouth, vê reconhecido seu predomínio na Coreia. Em 1907, os japoneses assumem o controle da administração e, em 1910, pura e simplesmente anexam o país.
O período da dominação japonesa (1910-1945) é marcado pelo desenvolvimento econômico da Coreia. As elites coreanas, entretanto, são excluídas dos cargos de direção e formam, a partir de 1919, um movimento de resistência nacional. Em conseqüência, criam um governo provisório no exílio, primeiro em Xangai e, depois, em Washington, sob a presidência do Dr. Syngman Rhee. Em plena II Guerra Mundial, durante a Conferência do Cairo (1943), os aliados decidem restaurar a independência da Coreia, projeto executado após a derrota do Japão. Mas a Coreia é dividida em duas zonas de ocupação, uma soviética, ao norte, e outra americana, ao sul, delimitadas pelo paralelo 38.
Conflitos entre Japão, Rússia e China: militares do Japão e da China esmagam representante da Coreia, observados por soldado russo (caricatura/1904).

 Assim, o verão de 1948 assiste à criação de dois Estados coreanos antagônicos: ao sul, a República da Coreia, presidida por Syngman Rhee; ao norte, a República Democrática Popular da Coreia, presidida pelo comunista Kim Il-sung. Após a evacuação simultânea das tropas soviéticas e americanas (1948-1949), a Coreia do Norte tenta reunificar o país pela força. Em 25 de junho de 1950, os norte-coreanos iniciam as hostilidades. Obrigados a abandonar Seul no dia 28, os sul-coreanos obtêm a intervenção dos Estados Unidos e de uma força das Nações Unidas, composta essencialmente por americanos. A contra-ofensiva empurra as tropas da ONU para a fronteira com a China. Os chineses contra-atacam e obrigam as forças da ONU a recuar novamente para além de Seul. Progressivamente, os americanos vão ganhando terreno e estabilizam a fronteira no paralelo 38, o que significa o retorno ao ponto de partida. O armistício de Panmunjon (27 de junho de 1953) restabelece a divisão da Coreia em dois Estados separados pela linha de cessar-fogo.
Ao norte, a ditadura comunista retoma a tradição do reino eremita. O déspota Kim Song-ju decidiu trocar seu nome pelo de Kim Il-sung, evocando a figura de um resistente dos primeiros anos da guerrilha contra o Japão. Mais tarde, Kim Il-sung propagará a história de que seu avô estava entre os combatentes que expulsaram a tripulação do General Sherman, assinala Pierre Rigoulot, autor de Coreia do Norte, Estado Rebelde (Buchet Chastel, 2003). Kim Il-sung, o Grande Líder, inspira nova ideologia, a djoutché que, em novembro de 1970, substitui o marxismo-leninismo. Conforme esclarece Pierre Rigoulot, a filosofia da djoutché consiste em afirmar o domínio de si, a independência em relação às influências estrangeiras, a auto-suficiência, mas o país é, nesta época, totalmente dependente da China e da URSS; essa filosofia exalta ainda o ser coreano e a vontade humana, mas acrescenta imediatamente que esta vontade exprime-se por meio do líder.
Após anos de constantes incidentes na linha de demarcação, as duas Coréias decidem cessar as hostilidades. Em 1972, os dois países assinam um acordo pelo qual renunciam a qualquer provocação. Entretanto, em 1987, os norte-coreanos derrubam um avião civil da Korean Airlines ocasionando 117 mortos. Pierre Rigoulot lembra que não foi apenas uma primeira tentativa: em 9 de outubro de 1983, uma bomba explode em Rangun, na Birmânia, na comitiva sul-coreana liderada pelo presidente do Sul, em visita oficial. Vinte e uma pessoas morrem, dentre elas quatro ministros.
Outra particularidade da Coreia do Norte é o culto à personalidade. Quando Kim Jong-il sucede seu pai, morto em 1994, a propaganda continua. A agência de imprensa oficial, a Korean Central News Agency, relata que, em 24 de novembro de 1996, o Bem-Amado Dirigente encontra-se em Panmunjon, a algumas centenas de metros das forças sul-coreanas e americanas. A região, então, é envolvida por espesso nevoeiro, o que permite ao Querido Líder transitar pelas posições inimigas sem ser observado.
Desde o fim da ajuda chinesa e, depois, da soviética, a economia norte-coreana está decadente. A fome teria provocado, em 1995, a morte de 3 milhões de pessoas. O único setor em desenvolvimento é a indústria militar. Em agosto de 1998, o Japão constatou o lançamento de um míssil norte-coreano, cuja trajetória passava através do espaço aéreo japonês e terminava no Pacífico. Pierre Rigoulot aponta que a arma, com alcance de 2.000 km, era, provavelmente, um Taepodong 1, embora a Coreia do Norte tenha dito que se tratava de um lançador de satélites. A partir de então, os especialistas têm certeza de que esses mísseis poderão, em breve, atingir a costa oeste dos Estados Unidos.
E quanto à carga lançada? Os norte-coreanos assinaram, em 1985, o tratado de não-proliferação nuclear; e até aceitaram, em 1994, desativar duas centrais nucleares em troca do fornecimento, pelos Estados Unidos, de 500 mil toneladas de petróleo por ano. Mas, em dezembro de 2002, Pyongyang enviou de volta os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica, alegando que a ajuda era insuficiente: Em 2001, a Coreia do Norte, embora tenha ameaçado regularmente os seus vizinhos de mergulhá-los em um ‘oceano de chamas’, é o país que mais recebe ajuda em todo o mundo. A chantagem funciona a contento. No final de fevereiro, Washington anunciou o envio de 100 mil toneladas de alimentos para Pyongyang.